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Acordo sobre a Groenlândia expõe tensões entre Trump, Otan e soberania local

 


O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, afirmou nesta quinta-feira, 22, não ter sido consultado — nem sequer informado — sobre o conteúdo do acordo anunciado na véspera por Donald Trump, após uma reunião com o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Mark Rutte, a respeito do futuro do território cobiçado pelo presidente dos Estados Unidos. Segundo o líder groenlandês, nenhum pacto será considerado legítimo sem o consentimento da ilha ártica ou da Dinamarca, país ao qual o território está vinculado — um detalhe aparentemente secundário para Washington.

“Não sei exatamente o que contém o acordo sobre a minha terra”, lamentou Nielsen em entrevista coletiva em Nuuk, capital do território semiautônomo dinamarquês, que, apesar de estar sob a proteção da Otan, parece não ter sido incluído nas conversas que dizem respeito diretamente ao seu destino.

Após ameaçar aliados europeus contrários às suas ambições sobre a Groenlândia, Trump adotou um tom mais moderado na quarta-feira, durante sua participação no Fórum de Davos. O presidente americano descartou publicamente o uso da força para tomar a ilha e, depois de se reunir com Rutte, também recuou da ameaça de impor tarifas aos aliados europeus. Segundo o republicano, o encontro resultou na “estrutura de um futuro acordo” sobre a ilha rica em minerais — ainda que seus habitantes desconheçam essa tal estrutura.

“Ninguém além da Groenlândia e da Dinamarca está autorizado a firmar acordos sobre a ilha e o Reino da Dinamarca”, rebateu Nielsen nesta quinta-feira. A soberania e a integridade territorial, frisou, “são nossa linha vermelha” — uma observação que parece necessária sempre que grandes potências decidem redesenhar mapas à distância.

Que estrutura é essa?

Poucos detalhes do pacto vieram a público até o momento, mas Trump assegurou a jornalistas que os Estados Unidos obtiveram “tudo o que buscavam” e “para sempre”. Segundo a imprensa americana, os termos incluiriam a concessão de áreas do território para a construção de bases militares sob soberania americana. O ocupante do Salão Oval também sugeriu que o acordo envolveria acesso a riquezas minerais e a colaboração europeia na construção do chamado Domo de Ouro — o ambicioso sistema antimísseis que pretende instalar na região.

A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, afirmou que as negociações seguiriam em “dois eixos”: um no âmbito da Otan e outro nas relações entre Dinamarca, Groenlândia e Estados Unidos. Sobre a aliança militar transatlântica, declarou que todos os membros concordam “com a necessidade de uma presença permanente da Otan no Ártico”. Já sobre o segundo eixo, que envolve diretamente o futuro da ilha, não forneceu detalhes.

De acordo com uma fonte próxima às negociações entre Trump e Rutte, ouvida pela agência AFP, Estados Unidos e Dinamarca devem renegociar o acordo de defesa de 1951 sobre a Groenlândia, que permitiu o estabelecimento de uma base militar americana permanente no território. A mesma fonte descartou, no entanto, que tenha sido discutida a ampliação desse número com novas bases sob soberania direta de Washington — ao menos oficialmente.

A Groenlândia, por sua vez, afirmou desejar manter “um diálogo pacífico” sobre seu futuro, desde que respeitado seu “direito à autodeterminação”, declarou Nielsen. O premiê reiterou ainda que, caso a população seja chamada a escolher entre continuar vinculada à Dinamarca ou se unir aos Estados Unidos, a decisão já está clara: “escolhemos o Reino da Dinamarca, escolhemos a União Europeia, escolhemos a Otan” — escolhas que, diferentemente de certos acordos anunciados, passam pelo crivo de quem vive na ilha.

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